Manuel Tainha, Being yourSelfie

 
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Recentemente convidaram-me para falar num debate sobre o seguinte tema: o futuro é natural. A minha reacção primária foi uma interrogação: ai é? Não consigo ter uma ideia clara e muito menos certezas sobre o que aí vem. Vejam bem, o Jeff Koons acabou de vender um coelho fake por 91 milhões de dólares e há 91 milhões de coelhos presos à espera de um tacho. Expliquem-me lá isto. É natural? 

Pois certo dia ouvi esta frase e ficou-me para a vida: quando não vivemos o que acreditamos, passamos a acreditar no que vivemos. O futuro é no fundo o resultado desta frase. O certo é que o planeta está cheio de gente e gente cheia de ideias e isso é sempre promissor. Por isso gosto de sondar os artistas e estar próximo das novas gerações. O que pensam e como vivem na relação com o presente e o futuro?

Fui ao atelier do Manuel. Gosto do nome Tainha, não é propriamente sexy mas é interessante. Despertou-me a curiosidade. Li o nome colado a uma imagem de um jovem com um chapéu de palha na cabeça. O enquadramento é original. O seu Instagram também. Depois vi umas notas soltas, trabalhos expostos aqui e ali, e soaram-me bem. E nestas matérias das artes gosto de seguir o instinto e perseguir o rasto. 

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O Manuel Tainha tem 25 anos. Poucos. E de pintura quase nada. Mas tem ar de artista e não há fumo sem fogo. E por isso fiz o que eles todos fazem, mandei uma mensagem pelo Insta e... Bingo! Tem um avô arquitecto, um pai arquitecto e uma tia ligada às artes. Não bati na porta errada. Há uma matriz que nos persegue, forma-se quando somos crianças e nos obrigam a comer a papa nos jardins da Gulbenkian. Não nos entrega um certificado de qualidade, nem exclui todos os outros, mas vacina os que lá passam.  

Resolvi ir conhecer de perto a cena do Manuel. Esta geração não olha para o conta quilómetros, nem jogam com o amanhã, porque hoje há cerveja e um beat para os levar a parte alguma. Onde, não importa, não sabem, o onde tem muitas portas e um mundo que entra sem perguntar, o onde está ali, num sorriso e num encontro ocasional, numa imagem que recebem e os convoca para uma praia, seja a sua, a dele ou deles... não importa mesmo, desde que seja uma praia de areia doce e ar fresco, e eles respiram e inspiram, e quando inspiram retém aquilo, e depois levam e traduzem numa outra dança qualquer que não querem definir ou referenciar, ficam hoje por aqui, porque amanhã é um outro dia, uma outra história e o carro vai continuar a rolar. Importa mesmo é cada um curtir a sua cena.

O meu cérebro, como é evidente, tem outro formato, mas confesso que esta geração tem imenso charme e uma infinidade de m2. O futuro é natural? Não sei, mas é natural que haja um futuro paras as novas gerações. O tempo é a realidade mais enganadora, tem uma presunção que termina no segundo seguinte. Mas naquele segundo imutável, que pode durar anos, podemos porventura sentir o abraço da eternidade e a euforia dos Deuses. O segundo depois termina, morre, só que eles não sabem. E ainda bem. Vivem cada milésima como se fosse o última. 

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O que eles já sabém é que para se saltar e inspirar o segundo seguinte é preciso agarrar uma boa dose de pragmatismo. Queres viajar e não tens dinheiro, vais trabalhar no café. Só depois partes. Foi assim. Depois de muitas bicas e minis o Manuel Tainha seguiu os conselhos de Matt Mullican e viajou para Hamburgo.

Viver ali deu-me uma visão de labor e da tradição do trabalho árduo. Obrigou-me a desinstalar, a fazer e experimentar sem estar refém de um saco de referências. Algo muito português. Na Alemanha senti maior liberdade. Não há desculpas, nem bloqueios, nem paternalismos. Há um ciclo de expansão do teu eu. Há uma competição saudável e uma outra escala de mundo e oportunidades. 

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Há um sonho em curso que conjuga irreverência e a vontade de extravasar. Deixou o terceiro ano de Belas Artes pendurado, arrumou a mala e foi para Hamburgo, mas sabe que a cena dele tem os seus custos. Não importa, aprendeu a não se levar demasiado a sério. A rédea corre solta, tal como a vontade, tal como a vida. As cenas vão-se sucedendo sem uma ordem ou alinhamento, mas o trabalho de atelier, esse, tem um guião determinado por uma vontade firme.  

Quem sou eu para controlar, quando as coisas mais bonitas que me aconteceram e vi resultaram de acções não controladas. Nas Belas Artes... aquilo começou a estagnar e eu queria ir, expor com outros colegas, explorar e perceber onde estaria a minha identidade. E fui. Ao contrário da ideia dominante que temos dos alemães, eu senti que eles não se levam demasiado a sério. O trabalho sim, eles trabalham imenso, toda a gente trabalha e apresenta resultados. Foi o melhor que me aconteceu.

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Agora em Lisboa. O atelier é um submundo de tábua corrida onde descansam dezenas de tecidos pintados e por pintar. Há ali um lado cinematográfico mas verdadeiro, aquele ar dos ateliers de artistas: objectos perdidos, pincéis que não usa, garrafas de líxivia com as quais pinta, copos manchados de chá, máquina de costura, tomadas e fios derramados no chão, grades encostadas nas paredes, telas, um computador desgastado e uma coluna de som a bombar. Por detrás estende-se o casario e uma vista sobre o Tejo, sempre presente, sempre disponível.  

Entretanto tudo isto continua mesmo em mudança. Ouvi dizer que o Ritz já tem um serviço de Take Away, querem mais provas?! E o grande trunfo das novas gerações é que comportam uma carga de informação universal que caberia em 5 gerações passadas. Quando lhe pergunto por referências a escala rebenta. A viagem vai de Vilhelm Hammershøi a Michael Majerus. Isto agrada-me. O Manuel Tainha não quer rebentar com a escala, quer apenas encontrar o seu caminho fora de uma escala ditada.

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O meu trabalho é centrado em questões formais, mas tem um lado romântico. Aquilo que me move é uma energia que passa por múltiplas referências, inclusive as referências da escola clássica. Pode passar por Hans arp como pode bater no genérico do FiFa2003 ou libertar a energia dos jogadores de rugby. Sou eu, é o meu léxico. É evidente que o espectro intelectual da pintura foi construído na academia, até pela educação que recebi, mas depois, depois chega a minha vida e se estou a ouvir afrobeat enquanto pinto, o meu corpo, a minha mão, o meu gesto… aquele som faz ressonância em mim e isso pode ser intelectualizado depois, mas só depois. Num primeiro plano estou aberto à vida, acolho, gosto da surpresa. Na Alemanha disseram que o meu trabalho tinha um carácter feminino. E isso foi uma enorme surpresa.

O mundo pessoal de Manuel Tainha é objectivamente intenso, como o rugby que jogou durante 12 anos. Exige contacto e proximidade, uma batalha campal em modo regrado, porque há regras formais e alinhamento, uma ética com estética que é necessária cumprir. O processo é libertário e extravasa os cânones: usa lixívia, cose, perfura e constrói, até encontrar uma formalização que faça sentido. O resultado pode ser suave, mas a construção é violenta. Carrega a herança da arquitectura. Tem uma tendência natural para “objectualizar” a pintura. Todo um contexto que derruba fronteiras e multiplica as opções e escolhas. A pintura é hoje uma escala aberta que se solta das academias, não necessita obrigatoriamente dos pincéis. A pintura é uma entidade com vida própria, um meio com múltiplos caminhos, e o Manuel Tainha procura decididamente o seu.

Não adianta insistir ou procurar vislumbrar o que aí vem, o futuro é um espaço longínquo e imaterial.  Por ora a verdade reside na graciosidade ou “desgraciosidade” de gestos irrepetíveis. Há coragem aqui, escalas interessantes, a delicadeza do silêncio e a imperfeição que joga com uma organização “perfeita”. É um trabalho que exige a presença e o toque do nosso olhar. Permite-se assumir desvios formais, o que se revela encantador. Arrisca, perfilha o incorrecto, porque o correcto é uma mera formulação académica. O setup é marcado por uma coreografia vibrante. Há espaço para a surpresa. O feminino sobrevoa um campo de rugby. E sobre o futuro estamos conversados, ele vive no presente. 

Mónica Mindelis, Caos Calmo

“O ser que sobe vê apagarem-se os contornos do abismo”

A voz é suave, o tom pausado e tropical. O corpo franzino. O olhar, ligeiramente oriental. Expressivo, tal como o discurso. Sorriso fácil, audível e rasgado. Silênciosa e recolhida no acto de pintar. Traço expressivo. 

Mas quem é esta pintora, relativamente (des)conhecida, que pinta a partir de um exercício interior, diário e sistemático, que se inspira em Gaston Bachelard e segue para a tela levando e traduzindo no gesto, ora rasgado, ora dócil, a expressão da sua vida e do respirar e do sentir mais profundo?  

Quem é ela, que passados tanto anos de trabalho árduo e solitário de atelier solta de pronto um sorriso aberto:  “... sabe, eu acho que a minha pintura causa estranhamento. São poucas as pessoas que olham e gostam de imediato, mas isso é um elogio para mim... a revelação e o encantamento é posterior, exige uma relação, exige tempo... se fosse o contrário perdia todo o valor... isto para mim valida a universalidade interior que é comum ao ser humano.”

Vamos lá atrás.

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2011
Estávamos em 2011. Ia abrir uma galeria, o que aliás fazia todo o sentido. Basta recordar que vivíamos umas das maiores crises financeiras e o dinheiro que outrora corria como um rio, evaporou, ou melhor, sumiu. Precisava de montar um projecto e encontrar artistas plásticos que pudessem ajudar-me a formar um grupo de propostas sólidas e entre elas deviam coexistir novos autores. Fui afoito face ao perigo, à derrocada geral e ao convite lançado por dois amigos. Avancei. Para aumentar o grau da aventura, tinha passado os últimos cinco anos longe da capital e do selecto meio das artes e do meio que anda no meio do meio das artes. Foi neste contexto de um imenso salto no deconhecido que conheci a jovem Mónica Mindelis. 

2010
Para que conste. Em 2010 a minha vida era outra, oscialava entre um sargo grelhado e umas viagens de jipe em terreno acidentado. Trabalhava na costa alentejana. Recebia e guiava turistas, geria uma pequena empresa de alojamento local e turismo aventura. Ao fim da tarde podia seguir para o mar, descer umas ondas e de seguida, ao som do vento da noite, parar sem aviso à porta de um amigo: “vens jantar?”. Abria-se uma garrafa de vinho. Lá fora os pássaros apitavam aqui e ali, no ar um ligeiro aroma a esteva, e por cima o céu de um negro profundo e luminoso, repleto de coisas cintilantes e estrelas desconhecidas. Era simples. Bebia-se em silêncio. Comia-se devagar, falava-se se havia que falar, se não, era um silêncio acompanhado. Acabou-se quandos os tais dois bons amigos resolveram telefonar-me: “vens abrir uma galeria de arte em Lisboa”. Fui!  

2011, o encontro
Mudei-me e tudo mudou: o cenário e o ritmo, o contexto e as personagens. Vinha oxigenado. O campo dá-nos um ar diferente, entrega um horizonte que flui de manhã ao anoitecer. É escasso, pouco erudito, aparentemente solitário, mas intensamente revelador da essência maternal da vida.  

 Lisboa buzinava numa pressa que tinha guardada na memória. O encontro com os artistas, a criação de um calendário de projectos, as obras na galeria, a comunicação ao mundo, o catálogo, a base de dados, o convite... era preciso despoletar tudo e tudo já. Mas no primeiro plano interessavam-me os autores.

Não me lembro como lá cheguei, mas fui parar a umas catacumbas na Sociedade Nacional de Belas Artes. A Mónica Mindelis esperava-me e eu às escuras. A sala era enorme e vazia. Paredes brancas e nisto vejo-a a desenrolar uns rolos enormes de tela e papel, pinturas que a ultrapassavam em altura. Assisti áquele bailado na expectativa e com o receio de dizer: não. 

Surgiram uns traços expressionistas, vigorosos, que formavam uma teia intensa e caótica. Transmitiam uma energia própria. Impressionou-me, porque no caos pode subsistir a luz e uma certa escala de harmonia. Apresentou-me uns cinco ou seis trabalhos, todos eles com as notas exclusivas do preto e do branco. Falavam entre si. Aquilo lembrou-me “old school” e em bom. Disse sim.

 
 

Caos Calmo
Foi o começo. Desenvolvemos vários projectos em conjunto. A pintura, como qualquer processo artístico, necessita de um bem escasso, o tempo, e a Mónica Mindelis é generosa e paciente com ele. Percebi um pouco mais tarde que pintar não é apenas um acto de desejo ou uma daquelas vontades que nos dão, tão pouco um processo religioso ou experimentalista. É antes uma missiva espiritual de mergulho interior, um exercício permanente, onde a pintura tem o papel principal:

“O meu trabalho será sempre uma procura até ao último suspiro. Tem um lado muito intuitivo, sim, e isso não se explica, é a parte mais livre. Quando me deixo ser, quando estou ali por inteiro... é um momento intenso... eu não consigo dissociar o trabalho da minha vida, do momento que vivo. Quando estava grávida era impossível não ver a ali a maternidade... até os títulos das obras gritavam: “todo o ninho está condenado ao abandono”... os sentimentos fortes estão sempre lá... mas acho que isso é óbvio para todos... embora haja muitos autores que claramente dissociam o interior do seu trabalho. Não é o o meu caso.”

 Pois não!

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Depois da escrita rasgada, do preto e do branco, chegou a cor, “... e uma diferença fundamental: a intencionalidade. Na primeira fase da minha pintura eu partia do gesto e avançava por ali fora, sem pensar. O gesto vinha e só depois a composição. Agora a minha pintura é mais intencional, perdi o medo das formas”.

E passados oitos anos deste caos calmo é possível formular e delimitar os vários capítulos, “o meu trabalho é uma continuidade, são etapas da vida e da sua dualidade, dos cuidados e dos sonhos a que estamos sujeitos.”

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“Se no céu as imagens são pobres, os movimentos são livres” 


Gosta dos contrastes mas interessa-se e foca-se na procura do equlíbrio. Reina sempre a dualidade entre a explosão e a ordem: traços finos e suaves, manchas densas e com volume... surge a colagem, fina e regular, e ao lado um traço rude e vincado do bastão de óleo. “... eu procuro essa massa, como ao mesmo tempo preciso da suavidade do lápis... gosto de trabalhar o imperfeito, sentir na pele a beleza do imperfeito e fazer transparecer essas camadas de vida...”

E não nos entrega nada de mão beijada, teremos sempre de atravessar uma tempestade, sobreviver ao tumulto visceral da composição, aos contrastes, à intensidade narrativa e às explosões de cor, aos cortes e recortes vincados… mas se persistirmos e nos retivermos para além do imediato, se aprendermos a observar com atenção as nuances de uma caligrafia autónoma, revela-se um mundo desconhecido, uma linguagem vibrante e original.

A delicadeza explosiva ou a explosão delicada podem coexistir, ponto. Como escreveu Pedro Chorão: “O segredo é esta pintura levar o espectador a ficar sem saber bem o que dizer… É isto que é muito importante a pintura ter: o inexplicável, o mistério eterno, que será o que lhe irá dar a eterna vida”.

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Variáveis menos visíveis que eu aprecio:

Escreve enquanto pinta. Toma regularmente notas num caderno onde reúne textos e citações que se convertem em pistas e posteriormente ganham formas. Pensa sobre o acto de pintar. Raro.

Gosta de sonhar e consegue voar. É muito saudável esta capacidade de nos libertarmos dos pesadelos e ascender aos céus. Fala muito do filósofo Gaston Bachelard, uma companhia imprescindível: “… ele escreveu sobre a poética do sonho. A descrição de um sonho, quando as pessoas estão a voar... e lembro-me de ter sentido este sentimento maravilhoso de liberdade. Nenhum inimigo era capaz de me alcançar. Era a salvação...”.

Pratica a interioridade. O que nos oferece vai além do empirismo, dos sentidos e da razão. São formas não tangíveis que apontam a uma evocação de interioridade, a uma experiência sensível. Vive o que pinta, pinta o que vive.

Aprecia o perfeito inacabado: “o meu trabalho nunca vai estar pronto... é verde maduro... e isso conforta-me, porque significa que nunca vai ter fim...”

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Nota à parte
Enquanto escrevia este texto questionei-me por diversas vezes: porque tendo a alongar-me em considerações autobiográficas e afins? Uma explicação possível: escrever sobre artes plásticas pode ser tão complexo e fastidioso quanto ler. E todos nós já sentimos o martírio de passar os olhos por um texto que nos faz sentir os seres mais atrasados à face da Terra. Aquilo não apetece. E aquilo serve para explicar “a coisa” que está lá dentro, exposta, que não é para explicar, dizem, mas pelo sim pelo não, aquilo dá algum corpo e formalidade, no mínimo cria a dúvida e a dúvida penetra nas nossas certezas e torna-as incertas, inseguras face “à coisa” e deixa-nos ali pendurados e assim, sem se explicar, deixa-se explicado que algo filosoficamente inteligente está para lá de uma percepção primária, porventura a nossa. 

Não apetece. Não me apetece. E por isso, depois de ter tentado sem sucesso assimilar e fazer copy/paste de discursos e frases eruditas e notavelmente inteligentes, para tentar criar uma linha própria, rapidamente percebi que nem com mais estudos e teses de doutoramente chegaria lá, e também por isso o caminho apresentou-se-me simples, optei por back to the basics, no fundo por apresentar algumas pessoas que têm algo para nos revelar e surpreender sem termos de mergulhar num qualquer abismo filosófico ou conceptual. De forma muito simples, retirar a prosa daquela área do quadrado fechado onde por norma se expressa a vertente erudita, culta e por vezes altiva do meio, abraçando aqui uma forma de paganismo e sujeitando-me, como é evidente, a algum tipo de inquisição. 

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Pedro Batista, sobre a luz da pintura

 
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“… nas sociedades “supertecnológicas” quem consegue passar três ou quatro horas sozinho, sem estar ligado à Internet, está a introduzir ou a manter séculos passados no século XXI… Hoje, ler e escrever são quase processos de resistência, revolucionários. Não estar ligado à Internet, estar sozinho, implica ultrapassar uma quantidade de obstáculos. Não sendo a escrita um processo espiritual é um processo de abdicação. O contacto com a Internet é o mais fácil.”

Gonçalo M. Tavares, in entrevista ao semanário Expresso

Prelúdio. 
Sucede-me com cada vez maior frequência conhecer pessoas que manifestam abertamente o seu desejo:“vou assumir a minha vocação de artista”. Acho óptimo, até porque as máquinas vão acabar por retirar-nos dos trabalhos. Alguns querem ser pintores. Pegar em tintas e ficar ali, dia e noite à volta de uma ciência inexata. Esta tendência deveria ser diagnosticada precocemente. E no caso de se confirmar deverá ser ministrada uma prescrição bem definida e exemplar. Aceitar este destino é um passo que exige perspectiva e clarividência. Recordo-me que quando eu era miúdo os meus pais, de forma contínua e insistente, ensinaram-me a não aceitar nada sem saber o que me estavam a oferecer. No mínimo desconfiar, estar atento ao detalhe, avaliar com ponderação e franzir a sobrancelha antes de estender a mão. Ficou-me para a vida. Sou desconfiado. Os pais são um carimbo de memórias. Marcam-nos. E usam uma tinta que depois não sai. Esfrega-se, esfrega-se, esfrega-se, mas a impressão fica ali, debaixo da pele. É desta tinta que falo. Há um gene muito singular que determina a forma do desejo. É preciso conhecê-lo. A pintura é algo para se levar muito a sério.

Coragem. 
Esta manhã, ali pelas 08h00 à porta do ginásio, encontrei um amigo que decidiu relatar-me o sacrifício que acabara de viver ao sair da cama: “mas explica-me lá, porque é que tudo custa tanto, não podia a vida ser mais fácil? Temos mesmo de passar por um sacrifício para atingir algo válido…”. Rimos juntos, demos uma pancada no ombro um do outro, virámos as costas e fomos fazer flexões no meio de uma pequena multidão. É assim. O enigma que vivemos, este de estar vivo e viver estados de alma, não tem solução aparente. Os criadores sabem-no como ninguém. E ninguém neste planeta vive assim tão intensamente consigo próprio, dia a dia, pesquisando nas profundezas mais sombrias, vasculhando, vencendo com coragem o medo do escuro e a insegurança da mão, quando esta se recusa a obedecer e não corresponde uma ordem dada, quando o cérebro diz sim, segue o caminho, e os passos ficam tão aquém do que se imaginou.

Contexto.
O Pedro Batista é um pintor que acompanho desde 2012. Temos afinidades e amizades comuns mas nunca nos misturamos. Estou uma geração acima. O meu sangue corre mais espesso e lento. Isso permitiu-me sempre um olhar independente e crítico. Ser um pintor na sua geração é um desafio maior de sobrevivência, tanto de espírito como financeiro. Mas olhando de fora o mood geral é fun&fresh. A geração Erasmus e as companhias áreas low cost criaram as pontes deste novo melting pot, onde a máxima “vive e deixa viver” é acompanhada por uma avalanche de hubs criativos que vieram destituir dogmas e revolucionaram a própria industria criativa. É uma geração aberta e imparável, uma teia de redes e trocas que criam energia e novos valores. O Pedro Batista sabe surfar nesta onda que se desmultiplica em experiências de vida, entre o cool boy montado no seu skate e o artista que precisa de viver agarrado à sua raiz. Ao longo destes anos visitei e conheci uns quatro ou cinco ateliers onde se instalou e desinstalou. Lugares de passagem, lugares de experiência, lugares comuns aos da sua geração, mas ponto fulcral, onde exerceu o seu manifesto de pintor. 

Arena.
Esta evidente dualidade entre a ligeireza dos dias e a profundidade dos espíritos, tão vincada e difícil de conjugar, gera a matéria que despertou o meu interesse na obra do Pedro Batista. Enquanto pintor faz parte de uma geração que vive em contra ciclo. Todos eles precisam de silêncio, interioridade, tempo, precisam do toque, da verdade e dos olhares que sabem pousar com delicadeza... precisam de tudo isto e muito daquilo de que todos fugimos porque nos dá medo. E isto passa-se dentro. Lá fora, onde se vive, o filme muda radicalmente de cenário. Há um enorme campo de batalha disfarçado por confettis e lantejoulas. Um grau abaixo o terreno está repleto de oportunidades e peões armados. Há facções, intrigas, géneros e lutas que não se podem negar. A competição é feroz. O idealismo também. Um pintor sabe que há fronteiras que só se conseguem ultrapassar com a persistência e o tempo. Algumas só com ajudas. Mas a pintura continua a ser pintura. Perceber e conviver nesta dualidade, deixar-se ficar sem ser vencido, é o jogo da sua vida. 

Sobre a pintura de Pedro Batista.
Gosto imenso de olhar e gostar. Por vezes faz-me bem não ter de pensar ou apreender mensagens subliminares que me atiram para um conceito longínquo. Gosto de fruir. Gosto mesmo desta ideia perdida da fruição. Sabe-me bem ficar ali com aqueles traços e manchas que formam uma composição interessante. Sentir, mais do que perceber. Receber, mais do que pedir. Gosto de narrativas pintadas que nos deixam atentos. Aprecio enigmas que nos ligam a estórias não reveladas. E gosto da surpresa, de entrar pela criatividade alheia e de sentir o pulso da matéria. 
Faço vivas à old school, onde paradoxalmente inscreveria a pintura do Pedro Batista. Não foge da tela, não a nega. Ela é matéria e fórmula sofisticada de exprimir em frames o seu mundo, o seu statment. Não tem um percurso clássico mas é um pintor de atelier. Pinta a partir de uma narrativa interior, num exercício que se situa entre o desejo e uma necessidade. Não há ali espaço para a erudição ou aturadas proclamações filosóficas. Tão pouco a defesa de causas, demandas ou circunstâncias políticas e sociais. O conceito é simples e curto: pintar. A arena é a sua vida e o atelier, onde faz o que gosta. Foca-se sobretudo nas pessoas, num registo que transporta quase sempre uma carga psicológica ou teatral. Explora habitats diversos, recorrendo à cor, muitas vezes intensa e impactante. A “sua cena” é o momento que lhe dita e ele escreve. A pintura é um playground repleto de experiências e visões do quotidiano: personagens e estórias que recolhe das memórias ou naves espaciais que vagueiam na imaginação interplanetária. Falamos de matéria infinita: imagens cinematográficas, jogos psicológicos, sonhos, teias de memórias partilhadas, dinossauros ou objectos de culto. Estamos longe de uma visão clássica ou de uma tentativa de aproximação ao realismo. As vezes que o visitei e o vi a pintar, fiquei com a sensação de agarrar a pintura como um ofício, numa visão clássica do acto de pintar. Curiosamente esta formulação, aparentemente passadista, vem sendo reinventada numa outra escala, neste outro tempo, com toda uma nova fonte de desafios e mundos.

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Joana do país das maravilhas

“Quando sou boa, sou boa, quando sou má sou ainda melhor.”

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Sabe quem proferiu a famosa frase? Não foi a Joana. Não interessa para o caso. Soa bem, vem das entranhas e é um statment poderoso. Não foi a Joana mas poderia ter sido. Joana é nome de guerra. Joana são todos os artistas. Escolhi Joana porque há uma que conseguiu ser mais. Mais tudo. Mais poderosa, mais visível, mais falada, mais corporativa, mais ousada, mais activa e robusta. Simplesmente mais, mais do que todas as outras Joanas e Alices.

Joana apresentou trabalho. Fez-se notar. Lançou-se às feras nos anos 90, mas foi no raiar do novo milénio que o seu nome passou ser figura central do mercado das artes e não só. Criou ruído onde pairava um silêncio entupido. O grande circo internacional acolheu-a e de seguida aplaudiu-a. O povo lusitano rendeu-se. Os seus pares nem por isso. Continuam a juntar-se em coro, vociferam alto sobre o carácter lúdico/juvenil da obra e destilam inveja nos seus argumentos curatoriais. Não lhe perdoam, mas não lhe importa. Joana segue em frente com a sua caravana. Abre e conquista fronteiras. Criou o seu show e está perto dos Deuses do nosso tempo, a quem obedece.

O que me interessa de sobremaneira na Joana é o facto de ela saber melhor do que as outras Joanas o que custa ser artista. E esta percepção constitui em grande parte a chave mestra do seu caminho, visibilidade e sucesso. Ao ler algumas das suas entrevistas passei a conhecer melhor Joana. Fiquei seduzido. Revela inteligência, soft skills inegáveis e uma clarividência que denota o aprumo com que se moldou à realidade. O pragmatismo é uma ferramentas de trabalho.

Nos anos 90 a jovem Joana já sabia, por norma um artista aguenta-se 10 anos e 10 anos é um excelente padrão para medir o pulso. Uma grande maioria soçobra, cai e desaparece sem deixar rasto. Vão ver quantos Prémios EDP Novos Artistas subsistem e dos que subsistem, quantos desataram o cordão umbilical e seguiram? Quantos se desarmaram das mais profundas convicções e converteram-se em funcionários públicos? Ao fim de 10 anos Darwin ressuscita e descarrega no vazio geração atrás de geração. Sobram os mais fortes, os mais espertos, os mais adaptados ao meio, que por sinal é carnívoro e insaciável. E lá de quando em vez, ao dom da sobrevivência acresce o dom do talento.

Acresce também Portugal. Joana grande, pensou sobre o que se via por aqui em ponto pequeno. Os modernistas do século XX, fechados sobre o seu tempo, e as novas fronteiras a rasgarem-se, as telas a morrerem nos museus, as galerias numa encruzilhada, entre Pomar e Sarmento, os conceptualismos e os new media a extravasar, uma sociedade global e consumista numa mudança sem precedentes. Joana emancipou-se, saiu da redoma a que o meio tende a viver. Fez orelhas moucas, deixou-se de “puritanismos” e foi por ali fora. A concorrência é feroz. Joana artista virou Joana empresa, mas sempre Joana.

E sejamos claros, quantos artistas denotam o mesmo sorriso lustroso? Quantos artistas surgem ao lado de presidentes e quantos expressam publicamente o seu agradecimento ao país e ao mundo? Quantos artistas possuem peças em grandes colecções internacionais como a Pinault e a Arnault? Joana do povo. Joana a democrática. Joana a conquistadora. O seu discurso é um acto de rebelião face ao mainstream: a criação já não é um monopólio das artes plásticas. Acabou. Há arquitectos, designers, realizadores, joalheiros, costureiras… há matéria infinita sobre as mesas dos criadores.

Joana estudou. Observou o Homem contemporâneo e concluiu: vêem televisão e estão sujeitos à publicidade. Compram. São facilmente seduzidos. Os primeiros 30 segundos são vitais. Devoram tudo com base no first glimpse. É isto. Não fui eu que inventei. O nosso mundo é assim. Eu sou artista plástica, capto e traduzo um olhar sobre a realidade contemporânea. Querem lantejoulas? Aqui estão! Emocionem-se primeiro e pensem depois.

Joana é um paradoxo, ou seja, o oposto do que alguém pensa ser a verdade ou o contrário a uma opinião admitida como válida. Ou se gosta ou se odeia. Em cada gesto, peça e acção, há porventura tanto de verdade como de falso. Há tanto de singular como de banal. Há tanto de passado quanto de futuro. Mas há sempre muito e muito do tamanho do mundo de Joana. E de longe chega-nos o seu murmúrio: estamos no século XXI, meus caros, deixem Duchamp descansar em paz. Enterrem Beuys.

Para se alcançar este conjunto de feitos é preciso trabalhar arduamente. Suor, lágrimas e uma boa dose de clarividência (não é preciso sangue). Joana sabe o que custa ser artista. Há um preço, mas já não viaja sozinha. A seu lado seguem os omnipresentes colecionadores, os verdadeiros donos disto tudo, e no banco detrás os curadores, que contextualizam, fundamentam e apontam a compra. Viaja com Dior ou Gucci, com quem já desenvolveu projectos, viaja sempre com a presença de Darwin, com quem mede forças e sai sempre a ganhar.

Existe ainda a Joana feminina, Joana mulher, que se faz acompanhar da memória colectiva das avós, dos seus bordados e de Bordalo, de conceitos da portugalidade que apresenta transvestidos. Recorre à grande escala, gerando ondas de espanto. Recorre a objectos, materiais e ofícios de ontem, o que nos fixa a um imaginário sedutor e nos reverte para a nossa história e costumes. Um passado presente que exporta e vende, exaltando o patriotismo e a nação.

O seu cabinet de curiosités continua a ganhar forma e volume. É fácil criticar Joana. É difícil criticar Joana. Quando é boa, é boa, quando é má é ainda melhor.

1982, Inês Norton

“… A linguagem tem valor, mas o que tem valor na linguagem são as ideias, e as ideias têm algo que vem depois. E isso que vem depois das ideias não pode ser transmitido por palavras…”

1982… a Argentina invadia umas ilhas sobre domínio inglês no Atlântico sul, dando origem à guerra das Malvinas. Spielberg libertava ET e comprometia o planeta com o universo. Michael Jackson espalhava o terror com Thriller, o álbum mais vendido da história. García Márques viajava até à Suécia, celebrando amor em tempos de cólera. Elis Regina fechava os olhos e partia em direcção ao eterno.

1982… o tempo que nos dá corpo tem uma escala tão própria que nos faz parecer eternos e mortais na mesma fracção. A dualidade constitui-nos. Como é possível desejarmos abraçar o mundo e num outro momento morrer e fugir para dentro dele? Quanta gente habita em nós, sendo este nós um só. Como apagar a personagem solitária que vagueia no escuro da noite e amarrar para sempre a luz que se abate sobre o olhar de um amor infinito?

1982… nasce Inês Norton.

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Viajemos pois de 1982 até 2012, o ano em que a Inês atravessou a porta da minha então recém baptizada galeria. Demasiado jovem, demasiado bonita… demasiado frágil, conclui, muito antes de olhar para o seu trabalho. Um preconceito grosseiro tomou-me de assalto. Nem dei conta. Tinha o não no gatilho e estava pronto a disparar. Contive-me. Faltava abrir o portfólio e desatar o nó perante as evidências. Só depois poderia com um delicado sorriso pedir escusa, improvisando um caminho alternativo. Enganei-me.

Abrimos e folheamos imagens dos trabalhos. Escutei uma voz firme. Havia um discurso. Uma história com argumento e eu, que estou cansado de tantas histórias e conceitos quando o tema é arte, dei por mim a deter-me nos seus objectos feitos de muitas coisas e a acompanhar uma linguagem que, tendo sempre uma base metafórica, ligou-me de imediato à vida, ao ar que respiro e ao mundo dos homens. Alto, ela tem os pés na terra. Foi o primeiro capítulo.

Sobre o tema dos conceitos e as artes plásticas, tenho a acrescentar o seguinte: encontro-me e confronto-me frequentemente com autores que têm supostamente um discurso muito estruturado, todo um pensamento descrito por palavras que revelam os seus olhares intrincados, as interrogações contemplativas, angústias, revoltas, uma visão do mundo, statment ou… whatever… o que me parece como ponto de partida um caminho muito plausível e aceitável. Acontece porém que esse caminho é tortuoso. Expressar uma ideia original é um dos mais duros exercícios a que nos podemos submeter. Não está de facto ao alcance de todos. A vontade sim, a prática é outra coisa. Em muitos casos não resulta apenas do nosso desejo mas de um contexto histórico que está para lá do quarteirão do nosso ego. Mas mais difícil se torna quando sentimos o impulso de passar o conceito à praxis. Como eu costumo dizer, vestir uns calções, uma camisola de marca desportiva e calçar umas sapatilhas, contando lá fora aos meus amigos que agora pratico corrida, não faz de mim um maratonista, e sobretudo não faz de mim um maratonista competente. Ponto parágrafo.

Daquele encontro, daquela jovem artista… engoli em seco o primeiro olhar. Aprendemos muito a observar em silêncio. Foi o início de uma viagem e o seu azimute já estava marcado: “crio, acreditando que a arte é o caminho menos obstruido para a experienciação…". Deste ponto de partida a Inês Norton demarcou muito bem as linhas da sua procura. Mais, mantém-se fiel ao seu território. E nele vive e habita a dualidade. A dualidade do espírito e a dualidade da acção. A humanidade que co-habita na natureza: criando, construindo, manipulando. A natureza que co-habita e acolhe a humanidade: cedendo, gerando, abrigando.

O tempo mudou. A geração de artistas onde se insere a Inês Norton procura e escava num terreno tão fértil quanto consumido. É neste novo mundo, pejado de movimentos, objectos e relações, que a artista cria e nos interroga. O que sobra? O que nos resta a nós que penetramos natureza adentro, devorando cada fruto, cada raiz, cada átomo da vida? E que grandeza é esta, tão insana e deslumbrante, que nos abre ao universo e nos deixa a milímetros do abismo? O Deus criador. O Deus destruidor. All natural.

Acolhe a dualidade. Abraça ferro rude e áspero, transformando-o num objecto mensagem. Não se escuda no belo e no agrado. A estética é ponto de chegada. Constrói revelando sinais vivos de combate. No primeiro patamar está sempre uma interrogação. Os objectos nascem na margem do confronto com a realidade e surgem como metáfora aguda ao sistema, ao padrão instituído e a uma certa ideia mundo, a uma certa relação com o mundo, ao qual ela acrescenta nova consideração. O consumismo, a destruição, a apropriação… toda e qualquer intervenção humana despudorada, todo e qualquer frame que invoque o diálogo entre o natural e o artificial, entre a ordem viva e a criação humana, relembrando-nos fragilidades, perigos e ambiguidades, mas também relações de construção, são matérias filtradas num olhar atento e numa prática que entretanto formou um corpo de trabalho que se tornou robusto. O lado subversivo chega muita vezes com um toque de humor. O desarranjo das convenções e a ironia sobre a ordem estabelecida, são guiões de um alinhamento mental interpelador.

2019… A viagem continua e a Inês é uma maratonista competente. O presente, esse breve momento eterno, permite-nos prosseguir, obriga-nos a prosseguir. Não existe a perfeição mas um caminho até ela. A vida é um mero sopro e uma estrela demora biliões de anos até morrer. Não podemos parar, não podemos descuidar de pensar e viver a humanidade.

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"[...] a obra é irredutível a uma simples coisa explicável pela ligação matéria-forma, porque ela tem esta capacidade de exibir uma verdade. Mas a verdade que a obra mostra não é uma verdade abstrata, um horizonte geral. É uma verdade situada no tempo e no espaço, que é, a cada instante, a de um mundo e uma terra determinados "

( Michel Haar na interpretação das reflexões de Heidegger em - A origem da obra de arte )

Martinho Costa to Ground Control...3, 2, 1... and liftoff

Todos sentimos na pele que a vida é uma viagem. Por norma interessante, mas curta. Nascemos, berramos, experimentamos 1970 sensações diferentes, passamos bem e passamos mal, com alguma sorte rimos mais do que choramos e depois, depois chega aquele dia em que seguimos de foguetão para uma viagem no espaço. Durante os dias da Terra encontramo-nos uns com os outros e nunca paramos de viajar. Conhecemos todo um alfabeto de almas, mas na realidade… viajamos sós. A grande aventura da humanidade será sempre este percurso interior que nos fascina e sacode a cada dia. É assim. Um rol de personagens numa película sem fim. E os artistas fazem parte de um elenco especial. São um bem escasso que por sorte encontramos num certo cruzamento.

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Desde o virar do século que o observo. Conhecemo-nos pouco mas confio na minha intuição. O que procura, o que pinta? E que realidades são estas que nos apresenta e descreve? Martinho Costa é um viajante solitário. Vejo-o a chegar debaixo de uma chuva torrencial. Traz um passo vivo e um sorriso afável, mas o olhar esquivo e a atitude invariavelmente reservada desmascaram-no: há uma timidez endémica que conduz à interioridade. E é ali que habita o pintor, numa cápsula que resguarda e lhe permite captar a realidade desde de dentro.

Entrámos. O atelier, como o de tantos outros pintores, é uma oficina, um posto de trabalho. Desenganem-se, não há aqui uma gota de romantismo livresco. Pintar não é apenas um desejo ou uma manifestação de carácter artístico. Pintar é uma obsessão. Uma necessidade interna, um acto compulsivo e a ligação necessária entre os dois mundos onde habita. A relação com o exterior é intensa. Os olhos movem-se, captam, retém imagens e mais imagens, se possível tudo, fotografam, e depois retiram-se, partem ao encontro da tela, o seu espaço de conforto e relação.

Há essencialmente 3 tipos de artistas. Há artistas que trabalham para agradar. Há artistas que trabalham para desagradar. Há artistas que trabalham para cumprir o seu destino. Os primeiros querem fazer parte do sistema, precisam de colo e adoração. Pactuam com as modas e estão sujeitos às vibrações externas. São adoráveis e podem ser adorados por um período máximo de 10 anos. Depois cansam ou cansam-se. Desaparecem. Os segundos, salvo raras excepções no tempo, são mentes revoltadas, com instinto revolucionário, com gosto pelas artes mas quase todos com notória falta de jeito, e talvez isso explique em parte o sentimento de revolta. São anti sistema. Muitos são anti tudo. Vivem em nichos fechados. São auto sustentáveis e têm uma versão de universalidade do tamanho do nicho. E uma aversão universal ao belo e à ordem estabelecida. Têm sempre um guru, normalmente enterrado há décadas, que reverenciam e imitam descaradamente, sempre como se fosse a primeira vez. O discurso e a narrativa conceptual subjugam a prática e o objecto. Há mesmo quem use a expressão: o rei vai nu. Nem sempre vai, mas vai quase sempre. Por fim os artistas que como Martinho Costa seguem o seu destino. Aqueles que no seu tempo dão resposta a uma procura interior e nela se retém. Gostam, como todos os demais, de ser adorados e adoram vender. Mas não se vendem ou capitulam. Têm, como todos os demais, os vícios e a nobreza dos seres humanos. Mas o seu centro está num destino interior, numa necessidade de seguir um caminho tão claro que prevalece sobre tudo o mais. Em todas as áreas e nas mais distintas linguagens, estes artistas destacam-se porque reflectem sempre um grau de universalidade (ainda que não consensual).

 
 

“… Eu nunca mas nunca procuro a imagem perfeita, já tive essa percepção e sinto-me como se me tivesse a aproximar do abismo. O que me interessa é precisamente o oposto, pegar na imagem banal e atribuir-lhe algo”. Usar o banal para escapar ao banal, paradoxo ousado sobre o ponto de vista crítico e da percepção.

Revela-nos a sua verdade: “… a minha pintura não tem riscos, as pessoas aderem facilmente. A senhora agricultora aqui do lado, provavelmente gosta de algumas destas pinturas. E esse lado democrático também me interessa. Mas não entro no hiper realismo e não facilito a percepção, quando isso se aproxima, quando uma imagem gera demasiados consensos, aplausos e um caminho de vendas… eu retiro-me de imediato. E aconteceu-me algumas vezes na minha carreira.”

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O Martinho é um consumidor voraz de imagens e acontecimentos. Na primeira fase da sua carreira, agora quase a fazer 20 anos, utilizava a Internet para viajar. Trespassava literalmente o mundo e trespassava literalmente tudo, mas mesmo tudo… desde que algo naquela imagem lhe trouxesse desconforto, desconcerto, desalinho, por mais simples que fosse. Cenas familiares, objectos, arquitectura, naves espaciais e satélites, manifestações, desastres, violência… há sempre uma fronteira ténue que ele persiste em manter. Não é hiper realista, mas a realidade está ali escancarada. Capta a imagem com a aparente simplicidade descritiva de um repórter, mas tem um lado disruptivo latente, um olhar sobre causas que transporta e defende: democracia, igualdade, o meio ambiente, o consumo, a precaridade. A crueza, o real cru está sempre bem presente. O mundo que o Martinho aborda está todo ele um pouco como uma couve, corcomido.

Hoje em dia utiliza a máquina fotográfica. Capta centenas e centenas de imagens. Apaga as “demasiado perfeitas”. Já não vai à Internet buscar o mundo para se saciar, “… apercebi-me que somos tão ricos em Portugal, há tantos caminhos a explorar, até de um ponto de vista não trabalhado na história da pintura portuguesa. Tens um Malhoa, um Henrique Pousão (brutal), e sem o desejar ou procurar, eu diria que num contexto da arte contemporânea isto até suscita controvérsia e comentários. Gosto disso, de estar um pouco no contra poder, sem ser uma provocação académica. Não sou e não quero ser moralista, de nada, mas interessa-me uma certa crueza e um país algo esquecido. Mas recuso-me a ser militante e panfletário. Sou um pintor.”

E começa o seu jogo. A necessidade de fixar aquele frame numa tela. Um milésimo de segundo. A imagem que passa pelos seus olhos e do cérebro se dirige a umas mãos que constroem e elevam lentamente uma nova representação da realidade. A pintura transporta-nos para um outro patamar. O pintor devolve-nos uma certa visão do mundo. Cria uma narrativa cinematográfica, reflecte na tela um outro tempo.

Martinho vive para pintar e pinta a partir de uma intensa vivência interior. Lá fora está a paisagem, o mundo, a vida. Tem a perfeita noção dos desalinhos. Deixa-se interpelar mas não julga. Pinta, porque esse é o seu destino. É um viajante e um recolector insaciável. Precisa de ver e absorver o exterior, e depois recolher na solidão da tela, ali a vida e os seus fugazes momentos são elevados à condição única da pintura.