Pedro Batista, sobre a luz da pintura

 
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“… nas sociedades “supertecnológicas” quem consegue passar três ou quatro horas sozinho, sem estar ligado à Internet, está a introduzir ou a manter séculos passados no século XXI… Hoje, ler e escrever são quase processos de resistência, revolucionários. Não estar ligado à Internet, estar sozinho, implica ultrapassar uma quantidade de obstáculos. Não sendo a escrita um processo espiritual é um processo de abdicação. O contacto com a Internet é o mais fácil.”

Gonçalo M. Tavares, in entrevista ao semanário Expresso

Prelúdio. 
Sucede-me com cada vez maior frequência conhecer pessoas que manifestam abertamente o seu desejo:“vou assumir a minha vocação de artista”. Acho óptimo, até porque as máquinas vão acabar por retirar-nos dos trabalhos. Alguns querem ser pintores. Pegar em tintas e ficar ali, dia e noite à volta de uma ciência inexata. Esta tendência deveria ser diagnosticada precocemente. E no caso de se confirmar deverá ser ministrada uma prescrição bem definida e exemplar. Aceitar este destino é um passo que exige perspectiva e clarividência. Recordo-me que quando eu era miúdo os meus pais, de forma contínua e insistente, ensinaram-me a não aceitar nada sem saber o que me estavam a oferecer. No mínimo desconfiar, estar atento ao detalhe, avaliar com ponderação e franzir a sobrancelha antes de estender a mão. Ficou-me para a vida. Sou desconfiado. Os pais são um carimbo de memórias. Marcam-nos. E usam uma tinta que depois não sai. Esfrega-se, esfrega-se, esfrega-se, mas a impressão fica ali, debaixo da pele. É desta tinta que falo. Há um gene muito singular que determina a forma do desejo. É preciso conhecê-lo. A pintura é algo para se levar muito a sério.

Coragem. 
Esta manhã, ali pelas 08h00 à porta do ginásio, encontrei um amigo que decidiu relatar-me o sacrifício que acabara de viver ao sair da cama: “mas explica-me lá, porque é que tudo custa tanto, não podia a vida ser mais fácil? Temos mesmo de passar por um sacrifício para atingir algo válido…”. Rimos juntos, demos uma pancada no ombro um do outro, virámos as costas e fomos fazer flexões no meio de uma pequena multidão. É assim. O enigma que vivemos, este de estar vivo e viver estados de alma, não tem solução aparente. Os criadores sabem-no como ninguém. E ninguém neste planeta vive assim tão intensamente consigo próprio, dia a dia, pesquisando nas profundezas mais sombrias, vasculhando, vencendo com coragem o medo do escuro e a insegurança da mão, quando esta se recusa a obedecer e não corresponde uma ordem dada, quando o cérebro diz sim, segue o caminho, e os passos ficam tão aquém do que se imaginou.

Contexto.
O Pedro Batista é um pintor que acompanho desde 2012. Temos afinidades e amizades comuns mas nunca nos misturamos. Estou uma geração acima. O meu sangue corre mais espesso e lento. Isso permitiu-me sempre um olhar independente e crítico. Ser um pintor na sua geração é um desafio maior de sobrevivência, tanto de espírito como financeiro. Mas olhando de fora o mood geral é fun&fresh. A geração Erasmus e as companhias áreas low cost criaram as pontes deste novo melting pot, onde a máxima “vive e deixa viver” é acompanhada por uma avalanche de hubs criativos que vieram destituir dogmas e revolucionaram a própria industria criativa. É uma geração aberta e imparável, uma teia de redes e trocas que criam energia e novos valores. O Pedro Batista sabe surfar nesta onda que se desmultiplica em experiências de vida, entre o cool boy montado no seu skate e o artista que precisa de viver agarrado à sua raiz. Ao longo destes anos visitei e conheci uns quatro ou cinco ateliers onde se instalou e desinstalou. Lugares de passagem, lugares de experiência, lugares comuns aos da sua geração, mas ponto fulcral, onde exerceu o seu manifesto de pintor. 

Arena.
Esta evidente dualidade entre a ligeireza dos dias e a profundidade dos espíritos, tão vincada e difícil de conjugar, gera a matéria que despertou o meu interesse na obra do Pedro Batista. Enquanto pintor faz parte de uma geração que vive em contra ciclo. Todos eles precisam de silêncio, interioridade, tempo, precisam do toque, da verdade e dos olhares que sabem pousar com delicadeza... precisam de tudo isto e muito daquilo de que todos fugimos porque nos dá medo. E isto passa-se dentro. Lá fora, onde se vive, o filme muda radicalmente de cenário. Há um enorme campo de batalha disfarçado por confettis e lantejoulas. Um grau abaixo o terreno está repleto de oportunidades e peões armados. Há facções, intrigas, géneros e lutas que não se podem negar. A competição é feroz. O idealismo também. Um pintor sabe que há fronteiras que só se conseguem ultrapassar com a persistência e o tempo. Algumas só com ajudas. Mas a pintura continua a ser pintura. Perceber e conviver nesta dualidade, deixar-se ficar sem ser vencido, é o jogo da sua vida. 

Sobre a pintura de Pedro Batista.
Gosto imenso de olhar e gostar. Por vezes faz-me bem não ter de pensar ou apreender mensagens subliminares que me atiram para um conceito longínquo. Gosto de fruir. Gosto mesmo desta ideia perdida da fruição. Sabe-me bem ficar ali com aqueles traços e manchas que formam uma composição interessante. Sentir, mais do que perceber. Receber, mais do que pedir. Gosto de narrativas pintadas que nos deixam atentos. Aprecio enigmas que nos ligam a estórias não reveladas. E gosto da surpresa, de entrar pela criatividade alheia e de sentir o pulso da matéria. 
Faço vivas à old school, onde paradoxalmente inscreveria a pintura do Pedro Batista. Não foge da tela, não a nega. Ela é matéria e fórmula sofisticada de exprimir em frames o seu mundo, o seu statment. Não tem um percurso clássico mas é um pintor de atelier. Pinta a partir de uma narrativa interior, num exercício que se situa entre o desejo e uma necessidade. Não há ali espaço para a erudição ou aturadas proclamações filosóficas. Tão pouco a defesa de causas, demandas ou circunstâncias políticas e sociais. O conceito é simples e curto: pintar. A arena é a sua vida e o atelier, onde faz o que gosta. Foca-se sobretudo nas pessoas, num registo que transporta quase sempre uma carga psicológica ou teatral. Explora habitats diversos, recorrendo à cor, muitas vezes intensa e impactante. A “sua cena” é o momento que lhe dita e ele escreve. A pintura é um playground repleto de experiências e visões do quotidiano: personagens e estórias que recolhe das memórias ou naves espaciais que vagueiam na imaginação interplanetária. Falamos de matéria infinita: imagens cinematográficas, jogos psicológicos, sonhos, teias de memórias partilhadas, dinossauros ou objectos de culto. Estamos longe de uma visão clássica ou de uma tentativa de aproximação ao realismo. As vezes que o visitei e o vi a pintar, fiquei com a sensação de agarrar a pintura como um ofício, numa visão clássica do acto de pintar. Curiosamente esta formulação, aparentemente passadista, vem sendo reinventada numa outra escala, neste outro tempo, com toda uma nova fonte de desafios e mundos.

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Joana do país das maravilhas

“Quando sou boa, sou boa, quando sou má sou ainda melhor.”

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Sabe quem proferiu a famosa frase? Não foi a Joana. Não interessa para o caso. Soa bem, vem das entranhas e é um statment poderoso. Não foi a Joana mas poderia ter sido. Joana é nome de guerra. Joana são todos os artistas. Escolhi Joana porque há uma que conseguiu ser mais. Mais tudo. Mais poderosa, mais visível, mais falada, mais corporativa, mais ousada, mais activa e robusta. Simplesmente mais, mais do que todas as outras Joanas e Alices.

Joana apresentou trabalho. Fez-se notar. Lançou-se às feras nos anos 90, mas foi no raiar do novo milénio que o seu nome passou ser figura central do mercado das artes e não só. Criou ruído onde pairava um silêncio entupido. O grande circo internacional acolheu-a e de seguida aplaudiu-a. O povo lusitano rendeu-se. Os seus pares nem por isso. Continuam a juntar-se em coro, vociferam alto sobre o carácter lúdico/juvenil da obra e destilam inveja nos seus argumentos curatoriais. Não lhe perdoam, mas não lhe importa. Joana segue em frente com a sua caravana. Abre e conquista fronteiras. Criou o seu show e está perto dos Deuses do nosso tempo, a quem obedece.

O que me interessa de sobremaneira na Joana é o facto de ela saber melhor do que as outras Joanas o que custa ser artista. E esta percepção constitui em grande parte a chave mestra do seu caminho, visibilidade e sucesso. Ao ler algumas das suas entrevistas passei a conhecer melhor Joana. Fiquei seduzido. Revela inteligência, soft skills inegáveis e uma clarividência que denota o aprumo com que se moldou à realidade. O pragmatismo é uma ferramentas de trabalho.

Nos anos 90 a jovem Joana já sabia, por norma um artista aguenta-se 10 anos e 10 anos é um excelente padrão para medir o pulso. Uma grande maioria soçobra, cai e desaparece sem deixar rasto. Vão ver quantos Prémios EDP Novos Artistas subsistem e dos que subsistem, quantos desataram o cordão umbilical e seguiram? Quantos se desarmaram das mais profundas convicções e converteram-se em funcionários públicos? Ao fim de 10 anos Darwin ressuscita e descarrega no vazio geração atrás de geração. Sobram os mais fortes, os mais espertos, os mais adaptados ao meio, que por sinal é carnívoro e insaciável. E lá de quando em vez, ao dom da sobrevivência acresce o dom do talento.

Acresce também Portugal. Joana grande, pensou sobre o que se via por aqui em ponto pequeno. Os modernistas do século XX, fechados sobre o seu tempo, e as novas fronteiras a rasgarem-se, as telas a morrerem nos museus, as galerias numa encruzilhada, entre Pomar e Sarmento, os conceptualismos e os new media a extravasar, uma sociedade global e consumista numa mudança sem precedentes. Joana emancipou-se, saiu da redoma a que o meio tende a viver. Fez orelhas moucas, deixou-se de “puritanismos” e foi por ali fora. A concorrência é feroz. Joana artista virou Joana empresa, mas sempre Joana.

E sejamos claros, quantos artistas denotam o mesmo sorriso lustroso? Quantos artistas surgem ao lado de presidentes e quantos expressam publicamente o seu agradecimento ao país e ao mundo? Quantos artistas possuem peças em grandes colecções internacionais como a Pinault e a Arnault? Joana do povo. Joana a democrática. Joana a conquistadora. O seu discurso é um acto de rebelião face ao mainstream: a criação já não é um monopólio das artes plásticas. Acabou. Há arquitectos, designers, realizadores, joalheiros, costureiras… há matéria infinita sobre as mesas dos criadores.

Joana estudou. Observou o Homem contemporâneo e concluiu: vêem televisão e estão sujeitos à publicidade. Compram. São facilmente seduzidos. Os primeiros 30 segundos são vitais. Devoram tudo com base no first glimpse. É isto. Não fui eu que inventei. O nosso mundo é assim. Eu sou artista plástica, capto e traduzo um olhar sobre a realidade contemporânea. Querem lantejoulas? Aqui estão! Emocionem-se primeiro e pensem depois.

Joana é um paradoxo, ou seja, o oposto do que alguém pensa ser a verdade ou o contrário a uma opinião admitida como válida. Ou se gosta ou se odeia. Em cada gesto, peça e acção, há porventura tanto de verdade como de falso. Há tanto de singular como de banal. Há tanto de passado quanto de futuro. Mas há sempre muito e muito do tamanho do mundo de Joana. E de longe chega-nos o seu murmúrio: estamos no século XXI, meus caros, deixem Duchamp descansar em paz. Enterrem Beuys.

Para se alcançar este conjunto de feitos é preciso trabalhar arduamente. Suor, lágrimas e uma boa dose de clarividência (não é preciso sangue). Joana sabe o que custa ser artista. Há um preço, mas já não viaja sozinha. A seu lado seguem os omnipresentes colecionadores, os verdadeiros donos disto tudo, e no banco detrás os curadores, que contextualizam, fundamentam e apontam a compra. Viaja com Dior ou Gucci, com quem já desenvolveu projectos, viaja sempre com a presença de Darwin, com quem mede forças e sai sempre a ganhar.

Existe ainda a Joana feminina, Joana mulher, que se faz acompanhar da memória colectiva das avós, dos seus bordados e de Bordalo, de conceitos da portugalidade que apresenta transvestidos. Recorre à grande escala, gerando ondas de espanto. Recorre a objectos, materiais e ofícios de ontem, o que nos fixa a um imaginário sedutor e nos reverte para a nossa história e costumes. Um passado presente que exporta e vende, exaltando o patriotismo e a nação.

O seu cabinet de curiosités continua a ganhar forma e volume. É fácil criticar Joana. É difícil criticar Joana. Quando é boa, é boa, quando é má é ainda melhor.

1982, Inês Norton

“… A linguagem tem valor, mas o que tem valor na linguagem são as ideias, e as ideias têm algo que vem depois. E isso que vem depois das ideias não pode ser transmitido por palavras…”

1982… a Argentina invadia umas ilhas sobre domínio inglês no Atlântico sul, dando origem à guerra das Malvinas. Spielberg libertava ET e comprometia o planeta com o universo. Michael Jackson espalhava o terror com Thriller, o álbum mais vendido da história. García Márques viajava até à Suécia, celebrando amor em tempos de cólera. Elis Regina fechava os olhos e partia em direcção ao eterno.

1982… o tempo que nos dá corpo tem uma escala tão própria que nos faz parecer eternos e mortais na mesma fracção. A dualidade constitui-nos. Como é possível desejarmos abraçar o mundo e num outro momento morrer e fugir para dentro dele? Quanta gente habita em nós, sendo este nós um só. Como apagar a personagem solitária que vagueia no escuro da noite e amarrar para sempre a luz que se abate sobre o olhar de um amor infinito?

1982… nasce Inês Norton.

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Viajemos pois de 1982 até 2012, o ano em que a Inês atravessou a porta da minha então recém baptizada galeria. Demasiado jovem, demasiado bonita… demasiado frágil, conclui, muito antes de olhar para o seu trabalho. Um preconceito grosseiro tomou-me de assalto. Nem dei conta. Tinha o não no gatilho e estava pronto a disparar. Contive-me. Faltava abrir o portfólio e desatar o nó perante as evidências. Só depois poderia com um delicado sorriso pedir escusa, improvisando um caminho alternativo. Enganei-me.

Abrimos e folheamos imagens dos trabalhos. Escutei uma voz firme. Havia um discurso. Uma história com argumento e eu, que estou cansado de tantas histórias e conceitos quando o tema é arte, dei por mim a deter-me nos seus objectos feitos de muitas coisas e a acompanhar uma linguagem que, tendo sempre uma base metafórica, ligou-me de imediato à vida, ao ar que respiro e ao mundo dos homens. Alto, ela tem os pés na terra. Foi o primeiro capítulo.

Sobre o tema dos conceitos e as artes plásticas, tenho a acrescentar o seguinte: encontro-me e confronto-me frequentemente com autores que têm supostamente um discurso muito estruturado, todo um pensamento descrito por palavras que revelam os seus olhares intrincados, as interrogações contemplativas, angústias, revoltas, uma visão do mundo, statment ou… whatever… o que me parece como ponto de partida um caminho muito plausível e aceitável. Acontece porém que esse caminho é tortuoso. Expressar uma ideia original é um dos mais duros exercícios a que nos podemos submeter. Não está de facto ao alcance de todos. A vontade sim, a prática é outra coisa. Em muitos casos não resulta apenas do nosso desejo mas de um contexto histórico que está para lá do quarteirão do nosso ego. Mas mais difícil se torna quando sentimos o impulso de passar o conceito à praxis. Como eu costumo dizer, vestir uns calções, uma camisola de marca desportiva e calçar umas sapatilhas, contando lá fora aos meus amigos que agora pratico corrida, não faz de mim um maratonista, e sobretudo não faz de mim um maratonista competente. Ponto parágrafo.

Daquele encontro, daquela jovem artista… engoli em seco o primeiro olhar. Aprendemos muito a observar em silêncio. Foi o início de uma viagem e o seu azimute já estava marcado: “crio, acreditando que a arte é o caminho menos obstruido para a experienciação…". Deste ponto de partida a Inês Norton demarcou muito bem as linhas da sua procura. Mais, mantém-se fiel ao seu território. E nele vive e habita a dualidade. A dualidade do espírito e a dualidade da acção. A humanidade que co-habita na natureza: criando, construindo, manipulando. A natureza que co-habita e acolhe a humanidade: cedendo, gerando, abrigando.

O tempo mudou. A geração de artistas onde se insere a Inês Norton procura e escava num terreno tão fértil quanto consumido. É neste novo mundo, pejado de movimentos, objectos e relações, que a artista cria e nos interroga. O que sobra? O que nos resta a nós que penetramos natureza adentro, devorando cada fruto, cada raiz, cada átomo da vida? E que grandeza é esta, tão insana e deslumbrante, que nos abre ao universo e nos deixa a milímetros do abismo? O Deus criador. O Deus destruidor. All natural.

Acolhe a dualidade. Abraça ferro rude e áspero, transformando-o num objecto mensagem. Não se escuda no belo e no agrado. A estética é ponto de chegada. Constrói revelando sinais vivos de combate. No primeiro patamar está sempre uma interrogação. Os objectos nascem na margem do confronto com a realidade e surgem como metáfora aguda ao sistema, ao padrão instituído e a uma certa ideia mundo, a uma certa relação com o mundo, ao qual ela acrescenta nova consideração. O consumismo, a destruição, a apropriação… toda e qualquer intervenção humana despudorada, todo e qualquer frame que invoque o diálogo entre o natural e o artificial, entre a ordem viva e a criação humana, relembrando-nos fragilidades, perigos e ambiguidades, mas também relações de construção, são matérias filtradas num olhar atento e numa prática que entretanto formou um corpo de trabalho que se tornou robusto. O lado subversivo chega muita vezes com um toque de humor. O desarranjo das convenções e a ironia sobre a ordem estabelecida, são guiões de um alinhamento mental interpelador.

2019… A viagem continua e a Inês é uma maratonista competente. O presente, esse breve momento eterno, permite-nos prosseguir, obriga-nos a prosseguir. Não existe a perfeição mas um caminho até ela. A vida é um mero sopro e uma estrela demora biliões de anos até morrer. Não podemos parar, não podemos descuidar de pensar e viver a humanidade.

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"[...] a obra é irredutível a uma simples coisa explicável pela ligação matéria-forma, porque ela tem esta capacidade de exibir uma verdade. Mas a verdade que a obra mostra não é uma verdade abstrata, um horizonte geral. É uma verdade situada no tempo e no espaço, que é, a cada instante, a de um mundo e uma terra determinados "

( Michel Haar na interpretação das reflexões de Heidegger em - A origem da obra de arte )

Martinho Costa to Ground Control...3, 2, 1... and liftoff

Todos sentimos na pele que a vida é uma viagem. Por norma interessante, mas curta. Nascemos, berramos, experimentamos 1970 sensações diferentes, passamos bem e passamos mal, com alguma sorte rimos mais do que choramos e depois, depois chega aquele dia em que seguimos de foguetão para uma viagem no espaço. Durante os dias da Terra encontramo-nos uns com os outros e nunca paramos de viajar. Conhecemos todo um alfabeto de almas, mas na realidade… viajamos sós. A grande aventura da humanidade será sempre este percurso interior que nos fascina e sacode a cada dia. É assim. Um rol de personagens numa película sem fim. E os artistas fazem parte de um elenco especial. São um bem escasso que por sorte encontramos num certo cruzamento.

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Desde o virar do século que o observo. Conhecemo-nos pouco mas confio na minha intuição. O que procura, o que pinta? E que realidades são estas que nos apresenta e descreve? Martinho Costa é um viajante solitário. Vejo-o a chegar debaixo de uma chuva torrencial. Traz um passo vivo e um sorriso afável, mas o olhar esquivo e a atitude invariavelmente reservada desmascaram-no: há uma timidez endémica que conduz à interioridade. E é ali que habita o pintor, numa cápsula que resguarda e lhe permite captar a realidade desde de dentro.

Entrámos. O atelier, como o de tantos outros pintores, é uma oficina, um posto de trabalho. Desenganem-se, não há aqui uma gota de romantismo livresco. Pintar não é apenas um desejo ou uma manifestação de carácter artístico. Pintar é uma obsessão. Uma necessidade interna, um acto compulsivo e a ligação necessária entre os dois mundos onde habita. A relação com o exterior é intensa. Os olhos movem-se, captam, retém imagens e mais imagens, se possível tudo, fotografam, e depois retiram-se, partem ao encontro da tela, o seu espaço de conforto e relação.

Há essencialmente 3 tipos de artistas. Há artistas que trabalham para agradar. Há artistas que trabalham para desagradar. Há artistas que trabalham para cumprir o seu destino. Os primeiros querem fazer parte do sistema, precisam de colo e adoração. Pactuam com as modas e estão sujeitos às vibrações externas. São adoráveis e podem ser adorados por um período máximo de 10 anos. Depois cansam ou cansam-se. Desaparecem. Os segundos, salvo raras excepções no tempo, são mentes revoltadas, com instinto revolucionário, com gosto pelas artes mas quase todos com notória falta de jeito, e talvez isso explique em parte o sentimento de revolta. São anti sistema. Muitos são anti tudo. Vivem em nichos fechados. São auto sustentáveis e têm uma versão de universalidade do tamanho do nicho. E uma aversão universal ao belo e à ordem estabelecida. Têm sempre um guru, normalmente enterrado há décadas, que reverenciam e imitam descaradamente, sempre como se fosse a primeira vez. O discurso e a narrativa conceptual subjugam a prática e o objecto. Há mesmo quem use a expressão: o rei vai nu. Nem sempre vai, mas vai quase sempre. Por fim os artistas que como Martinho Costa seguem o seu destino. Aqueles que no seu tempo dão resposta a uma procura interior e nela se retém. Gostam, como todos os demais, de ser adorados e adoram vender. Mas não se vendem ou capitulam. Têm, como todos os demais, os vícios e a nobreza dos seres humanos. Mas o seu centro está num destino interior, numa necessidade de seguir um caminho tão claro que prevalece sobre tudo o mais. Em todas as áreas e nas mais distintas linguagens, estes artistas destacam-se porque reflectem sempre um grau de universalidade (ainda que não consensual).

 
 

“… Eu nunca mas nunca procuro a imagem perfeita, já tive essa percepção e sinto-me como se me tivesse a aproximar do abismo. O que me interessa é precisamente o oposto, pegar na imagem banal e atribuir-lhe algo”. Usar o banal para escapar ao banal, paradoxo ousado sobre o ponto de vista crítico e da percepção.

Revela-nos a sua verdade: “… a minha pintura não tem riscos, as pessoas aderem facilmente. A senhora agricultora aqui do lado, provavelmente gosta de algumas destas pinturas. E esse lado democrático também me interessa. Mas não entro no hiper realismo e não facilito a percepção, quando isso se aproxima, quando uma imagem gera demasiados consensos, aplausos e um caminho de vendas… eu retiro-me de imediato. E aconteceu-me algumas vezes na minha carreira.”

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O Martinho é um consumidor voraz de imagens e acontecimentos. Na primeira fase da sua carreira, agora quase a fazer 20 anos, utilizava a Internet para viajar. Trespassava literalmente o mundo e trespassava literalmente tudo, mas mesmo tudo… desde que algo naquela imagem lhe trouxesse desconforto, desconcerto, desalinho, por mais simples que fosse. Cenas familiares, objectos, arquitectura, naves espaciais e satélites, manifestações, desastres, violência… há sempre uma fronteira ténue que ele persiste em manter. Não é hiper realista, mas a realidade está ali escancarada. Capta a imagem com a aparente simplicidade descritiva de um repórter, mas tem um lado disruptivo latente, um olhar sobre causas que transporta e defende: democracia, igualdade, o meio ambiente, o consumo, a precaridade. A crueza, o real cru está sempre bem presente. O mundo que o Martinho aborda está todo ele um pouco como uma couve, corcomido.

Hoje em dia utiliza a máquina fotográfica. Capta centenas e centenas de imagens. Apaga as “demasiado perfeitas”. Já não vai à Internet buscar o mundo para se saciar, “… apercebi-me que somos tão ricos em Portugal, há tantos caminhos a explorar, até de um ponto de vista não trabalhado na história da pintura portuguesa. Tens um Malhoa, um Henrique Pousão (brutal), e sem o desejar ou procurar, eu diria que num contexto da arte contemporânea isto até suscita controvérsia e comentários. Gosto disso, de estar um pouco no contra poder, sem ser uma provocação académica. Não sou e não quero ser moralista, de nada, mas interessa-me uma certa crueza e um país algo esquecido. Mas recuso-me a ser militante e panfletário. Sou um pintor.”

E começa o seu jogo. A necessidade de fixar aquele frame numa tela. Um milésimo de segundo. A imagem que passa pelos seus olhos e do cérebro se dirige a umas mãos que constroem e elevam lentamente uma nova representação da realidade. A pintura transporta-nos para um outro patamar. O pintor devolve-nos uma certa visão do mundo. Cria uma narrativa cinematográfica, reflecte na tela um outro tempo.

Martinho vive para pintar e pinta a partir de uma intensa vivência interior. Lá fora está a paisagem, o mundo, a vida. Tem a perfeita noção dos desalinhos. Deixa-se interpelar mas não julga. Pinta, porque esse é o seu destino. É um viajante e um recolector insaciável. Precisa de ver e absorver o exterior, e depois recolher na solidão da tela, ali a vida e os seus fugazes momentos são elevados à condição única da pintura.

 
 

O Vai Vém... e nada fica!

Campanha em espaço público
O que se lê?
Como se interpreta?
O que suscita?

 
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Há umas semanas atrás, numa conversa com um pintor por quem tenho enorme estima e consideração, ouvi um comentário inesperado. E era sobre mim. Sobre a minha forma de observar. Não esperava. E quando algo incide sobre nós, o nós, o eu, é tão poderoso que nunca ficamos indiferentes. Ainda ando a pensar no que me disse. Já lá vão umas semanas. O talentoso e amável pintor tinha lidos um destes meus “posts”.

Oiçam-no: “… mas é curioso oh Justino, na tua escrita parece sempre que tens um parti pris, um olhar muito crítico sobre o meio das artes. Não, não, eu entendo-te, tens toda a razão, mas…”. O que me espantou não foi o comentário atento. Foi a verdade. E a verdade é como o ego, faz-nos pensar. E ouvir com clareza a avaliação de uma personagem insuspeita… fez-me perguntar do porquê do olhar crítico. E depois aquele “eu entendo-te mas…” em suspenso, deixando antever o perigo de despeito pela ordem. Riam-se, o campo das artes é o maior playground do planeta.

E nisto, caminhando eu pelas ruas da capital, deparo-me com este enorme cartaz branco com umas letras negras. Estanquei: “mas… o que é isto?”. Não conseguia ler. Tentei mas não consegui perceber as parangonas. Parei porque desde os anos 70 vivo em Alvalade, onde se encontra a galeria Quadrum. E isso sim, consegui ler. Parei porque partilho do meio das artes e faço parte dos 0,005% de lisboetas que conhecem esta galeria, este nome. Tirei a fotografia e segui caminho. Mas na rua permaneceu um cartaz órfão de razão, alma e identidade, um nado morto que jamais chegará ao destino. Fará algum sentido esta crítica?

 
Double Face, Bruce Nauman, 1981

Double Face, Bruce Nauman, 1981

 

Confesso que no mínimo veio resgatar-me e traduzir o valor e o bom sentido da se poder criticar. Vejamos: a estrutura do país mantém as pessoas afastadas das artes. Não há e nunca houve dinheiro. Há porventura crédito, mas mal parado, se é que me faço entender. Há umas teorias sobre a importância das artes plásticas, mas uma prática contrária. Face à realidade todos os participantes activos do meio se queixam: artistas, curadores, galerias… Todos e muito, cada qual com as suas razões. O mercado é afunilado e estimula a autofagia. O público é escasso, tanto como o interesse que os meios de comunicação revelam. As artes plásticas sobrevivem numa espécie de placa tectónica, jogo de forças que por vezes abana e outras derruba. O sistema parece conduzir e induzir ao autismo: como ninguém nos ouve e entende, desatamos a falar ao espelho.

E isto e só isto explica que neste contexto seja possível comunicar assim. Perante uma oportunidade rara de ampliar a voz, de se relacionar e atingir um público distinto, abrir as portas, chamar, partilhar e interagir, usando um meio que existe para chegar a um público vasto, para gerar uma pedagogia de participação (ninguém os deve ter obrigado, espera-se), a opção foi ficar a falar dentro de um pequeno cubo hermético, falar para dentro, falar como e para o meio, fechar. Não me ocorre um pensamento sobre o que os responsáveis poderão assumir sobre o acerto e resultados de uma campanha destas. Mas para quem foi feita esta campanha em espaço público? Bom, procurando ser benevolente, enfim, podíamos tentar ver aqui um rasgo artístico, mas a fórmula nem sequer é original.

Tudo isto é porventura muito contemporâneo, muito actual, muito moderno, muito tudo o que quiserem, mas muito pouco acertado. E sim, vale a pena dar o peito às balas e abrir a pena à crítica, porque a liberdade de pensar, sendo plural e livre, necessita de espaço e abertura, para que a arte não se converta num feudo de um pensamento pseudo/acção libertário.

PS: ahhhhh… já agora, talvez o mais importante mesmo seja referir aquilo que o cartaz se esqueceu de referir, a exposição na Geleria Quadrum é de um excelente artista e tem um nome: Bruno Pacheco. Deixei o melhor para o fim.

Ver para prazer do olhar

Diebenkorn, 1922-1993, USA
Soren Sejr, 1981 - , Dinamarca

Diebenkorn Ocean Park #128,  1984

Diebenkorn
Ocean Park #128,
1984

Diebenkorn Ocean Park #116,  1979

Diebenkorn
Ocean Park #116,
1979

Passaram 6 décadas entre o nascimento de um dos mais aclamados pintores expressionistas americanos, Richard Diebenkorn (1922-1993), e o ainda jovem e desconhecido pintor dinamarquês, Soren Sejr.

Diebenkorn conquistou um espaço nos livros e museus, na história da arte do século xx. Tem uma fundação: http://diebenkorn.org e cerca de 50 anos passados a pintar. Fases distintas, capítulos bem definidos numa linha de tempo. É um dos meus pintores preferidos do século XX.

Soren Sejr é um pintor do século XXI. Pouco sei. A linha de tempo é tão escassa como a informação. Por um mero acaso viajei até Aarhus, na Dinamarca, com travessia directa via Instagram. Tem um percurso com fios e ligações à pintura modernista.

Detive-me na geografia contida e linear das suas últimas obras. Lembrei-me do “meu velho amigo” Diebenkorn. O passado bem assente, a memória viva, os processos estruturados, a procura genuína, a pintura verdadeira e universalista, estende-se e propaga-se por continentes e gerações. Não morre, não se apaga.

Não se trata de passadismo ou revivalismo. Não tento comparar. Mas ambos os autores, nas suas distâncias, debatem-se com as questões de fundo que envolvem o processo criativo: os planos, o espaço, o jogo da cor e luz, o constante desafio de acrescentar algo e resolver o infinito, a procura da formula que conduza e responda à necessidade do equilíbrio.

Soren Sejr  “For Martha” 2018

Soren Sejr
“For Martha”
2018

Soren Sejr “D-Play”, 2018

Soren Sejr
“D-Play”,
2018

Joana Rá... espreitar para lá da penumbra

 
Joana Rá Ainda sobre Noa-Noa  Técnica mista sobre papel e madeira 56 x 36 x 25 cm 2017

Joana Rá
Ainda sobre Noa-Noa
Técnica mista sobre papel e madeira
56 x 36 x 25 cm
2017

 

A penumbra é o estado de sítio em que nos encontramos. Um território vazado de substância relevante, onde aqui e ali se assomam uns raios de luz. Sempre foi muito difícil ser-se criativo. Mas verdadeiramente raro é ser-se original. Na penumbra, onde os contornos são escassos, tudo passa de forma fugaz ao olhar. 

As novas gerações, como a que pertence a Joana Rá, debatem-se com luzes contraditórias. É o tempo da abundância. A democratização dos meios e o consumo voraz, trouxeram-nos todas as oportunidades. Sobra-nos muito. E o muito que sobra sabe-nos já e sempre a pouco. A escassez, não sendo por norma um bem, tem o dom de nos relembrar a finitude da vida. O excesso, por seu lado, conduz as almas para uma ilusão carnívora e insaciável da existência.

Sem ambição não há futuro. Porém não há resposta possível a esta velocidade, a esta necessidade de fornecer uma torrente contínua de algo novo, surpreendente, fresco e original, que alimente cada segundo, cada momento, cada acção de uma vida que não se contenta com menos do que o excesso. Não nos basta a água porque a água corre a jorro e enquanto corre o sabor é incipiente. E no entanto a água, sabendo sem o saber, é um bem tão finito como a nossa existência. Os sabores desmultiplicam-se mas chegam-nos apenas por indução. Já não somos livres nas nossas escolhas.  

As artes reflectem este estar. Os curadores sobrepõem-se demasiadas vezes aos criadores e às criações. Gerem a avidez e a necessidade de respostas através de jogos de palavras. Procuram saídas para este impasse. São eles os decisores. Aqueles que apontam e validam. Reportam na maioria das vezes e sem o saber, a exaustão, a exaustão da abundância e a dificuldade de nos deixarmos surpreender. Raras vezes são resposta a um novo olhar. Condicionam mais do que abrem. Geram penumbra.

As novas gerações vivem este difícil e penoso jogo, entre aquilo que as constitui, a necessidade de dar uma resposta interior e as exigências do seu tempo. Não basta coragem para prosseguir, é preciso ambicionar espreitar para lá da penumbra. 

Joana Rá, Do espaço Técnica mista sobre papel e madeira 70 x 70 cm 2017

Joana Rá,
Do espaço
Técnica mista sobre papel e madeira
70 x 70 cm
2017

Joana Rá Ensaiando os raios de Sol Técnica mista sobre papel e madeira 50 x 50 x 25 cm 2017

Joana Rá
Ensaiando os raios de Sol
Técnica mista sobre papel e madeira
50 x 50 x 25 cm
2017

Subtrair o contorno da essência

Tenho acompanhado de perto os processos da Joana Rá. Aprendi a observar os seus trabalhos como um convite à reconstrução do olhar, a oportunidade de sair da tela e configurar novos caminhos. Há artistas que nascem com um guião, um dom que os obriga a transbordar por ali. A Joana Rá faz parte de um outro grupo, daquele que nasceu para explorar limites e fronteiras. 

Não sabem ao que vêm e muito menos ao que irão. Seguem o instinto. Há um foco e uma energia interior que os atira para ali. Uma vontade interna que se sobrepõe aos desejos do mundo. Arriscam. Como um explorador, desejam encontrar-se frente a frente com o desconhecido. E partem. Por norma os caminhos são sinuosos. Levantam-se dúvidas e barreiras. Por vezes são forçados, voltam para trás. Irritam-se, viram mais uma esquina e seguem. É um acto contínuo de procura e conquista. 

 
 

Joana Rá protagoniza uma súmula da contemporaneidade, dos desafios e oportunidades que se encontram nela. Falo primeiro da Joana Rá e não do seu trabalho. O trabalho chega depois. Primeiro a estudante de arquitectura, filha de arquitecto, irrequieta e insatisfeita. A casa é a sua base, o ponto de partida, a estrutura que a sustém, mas a vibração interna amplia algo que não se define. Não lhe chega a casa. Tão pouco as escolas de artes e os seus processos. O contexto que procura é amplo. Precisa de agregar: materiais, formas, interrogações, experiências. Precisa de espaço para a surpresa. Estudou serralharia, mas seguramente irá aprender carpintaria, joalharia, tapeçaria... vai procurar sempre abraçar o mundo, ainda que o seu aperto nunca seja suficiente, perfeito. Sabe bem que trabalha lado a lado com o efémero. Tem medos, mas segue. Interroga-se e arrisca neste mar revolto e impermanente. E tudo isto é tão presente, tão real, tão contemporâneo. 

Joana Rá Por debaixo do tapete Técnica mista sobre papel 61 x 47 cm 2015

Joana Rá
Por debaixo do tapete
Técnica mista sobre papel
61 x 47 cm
2015

O seu percurso, não sendo em absoluto iniciático, contém uma frescura que me agrada. A originalidade nos nossos dias é demasiadas vezes sinónimo de agressão, transgressão ou movimento forçado, fazendo deles bandeira; e neste tempo em que os conceptualismos comandam a criação e domina um certo caos, como lei e ordem, o trabalho de Joana Rá cativa um grau de alquimia que nos chega como uma expressão alternativa, original. 

Ficamos na dúvida se as estruturas que nos apresenta são as obras, ou se as obras residem na imagem que delas captamos. Provavelmente a verdade esteja nesta junção de estrutura e composição. De cor, forma e textura. De pintura e escultura. Há em todas elas uma evidente subtracção, o desejo de subtrair corpo, densidade, até restar apenas um contorno, um apontamento, um sopro delicado que permaneça como um sopro de vida.