O Vai Vém... e nada fica!

Campanha em espaço público
O que se lê?
Como se interpreta?
O que suscita?

 
Dupla Face.jpg
 

Há umas semanas atrás, numa conversa com um pintor por quem tenho enorme estima e consideração, ouvi um comentário inesperado. E era sobre mim. Sobre a minha forma de observar. Não esperava. E quando algo incide sobre nós, o nós, o eu, é tão poderoso que nunca ficamos indiferentes. Ainda ando a pensar no que me disse. Já lá vão umas semanas. O talentoso e amável pintor tinha lidos um destes meus “posts”.

Oiçam-no: “… mas é curioso oh Justino, na tua escrita parece sempre que tens um parti pris, um olhar muito crítico sobre o meio das artes. Não, não, eu entendo-te, tens toda a razão, mas…”. O que me espantou não foi o comentário atento. Foi a verdade. E a verdade é como o ego, faz-nos pensar. E ouvir com clareza a avaliação de uma personagem insuspeita… fez-me perguntar do porquê do olhar crítico. E depois aquele “eu entendo-te mas…” em suspenso, deixando antever o perigo de despeito pela ordem. Riam-se, o campo das artes é o maior playground do planeta.

E nisto, caminhando eu pelas ruas da capital, deparo-me com este enorme cartaz branco com umas letras negras. Estanquei: “mas… o que é isto?”. Não conseguia ler. Tentei mas não consegui perceber as parangonas. Parei porque desde os anos 70 vivo em Alvalade, onde se encontra a galeria Quadrum. E isso sim, consegui ler. Parei porque partilho do meio das artes e faço parte dos 0,005% de lisboetas que conhecem esta galeria, este nome. Tirei a fotografia e segui caminho. Mas na rua permaneceu um cartaz órfão de razão, alma e identidade, um nado morto que jamais chegará ao destino. Fará algum sentido esta crítica?

 
 Double Face, Bruce Nauman, 1981

Double Face, Bruce Nauman, 1981

 

Confesso que no mínimo veio resgatar-me e traduzir o valor e o bom sentido da se poder criticar. Vejamos: a estrutura do país mantém as pessoas afastadas das artes. Não há e nunca houve dinheiro. Há porventura crédito, mas mal parado, se é que me faço entender. Há umas teorias sobre a importância das artes plásticas, mas uma prática contrária. Face à realidade todos os participantes activos do meio se queixam: artistas, curadores, galerias… Todos e muito, cada qual com as suas razões. O mercado é afunilado e estimula a autofagia. O público é escasso, tanto como o interesse que os meios de comunicação revelam. As artes plásticas sobrevivem numa espécie de placa tectónica, jogo de forças que por vezes abana e outras derruba. O sistema parece conduzir e induzir ao autismo: como ninguém nos ouve e entende, desatamos a falar ao espelho.

E isto e só isto explica que neste contexto seja possível comunicar assim. Perante uma oportunidade rara de ampliar a voz, de se relacionar e atingir um público distinto, abrir as portas, chamar, partilhar e interagir, usando um meio que existe para chegar a um público vasto, para gerar uma pedagogia de participação (ninguém os deve ter obrigado, espera-se), a opção foi ficar a falar dentro de um pequeno cubo hermético, falar para dentro, falar como e para o meio, fechar. Não me ocorre um pensamento sobre o que os responsáveis poderão assumir sobre o acerto e resultados de uma campanha destas. Mas para quem foi feita esta campanha em espaço público? Bom, procurando ser benevolente, enfim, podíamos tentar ver aqui um rasgo artístico, mas a fórmula nem sequer é original.

Tudo isto é porventura muito contemporâneo, muito actual, muito moderno, muito tudo o que quiserem, mas muito pouco acertado. E sim, vale a pena dar o peito às balas e abrir a pena à crítica, porque a liberdade de pensar, sendo plural e livre, necessita de espaço e abertura, para que a arte não se converta num feudo de um pensamento pseudo/acção libertário.

PS: ahhhhh… já agora, talvez o mais importante mesmo seja referir aquilo que o cartaz se esqueceu de referir, a exposição na Geleria Quadrum é de um excelente artista e tem um nome: Bruno Pacheco. Deixei o melhor para o fim.