Joana Rá... espreitar para lá da penumbra

 
 Joana Rá Ainda sobre Noa-Noa  Técnica mista sobre papel e madeira 56 x 36 x 25 cm 2017

Joana Rá
Ainda sobre Noa-Noa
Técnica mista sobre papel e madeira
56 x 36 x 25 cm
2017

 

A penumbra é o estado de sítio em que nos encontramos. Um território vazado de substância relevante, onde aqui e ali se assomam uns raios de luz. Sempre foi muito difícil ser-se criativo. Mas verdadeiramente raro é ser-se original. Na penumbra, onde os contornos são escassos, tudo passa de forma fugaz ao olhar. 

As novas gerações, como a que pertence a Joana Rá, debatem-se com luzes contraditórias. É o tempo da abundância. A democratização dos meios e o consumo voraz, trouxeram-nos todas as oportunidades. Sobra-nos muito. E o muito que sobra sabe-nos já e sempre a pouco. A escassez, não sendo por norma um bem, tem o dom de nos relembrar a finitude da vida. O excesso, por seu lado, conduz as almas para uma ilusão carnívora e insaciável da existência.

Sem ambição não há futuro. Porém não há resposta possível a esta velocidade, a esta necessidade de fornecer uma torrente contínua de algo novo, surpreendente, fresco e original, que alimente cada segundo, cada momento, cada acção de uma vida que não se contenta com menos do que o excesso. Não nos basta a água porque a água corre a jorro e enquanto corre o sabor é incipiente. E no entanto a água, sabendo sem o saber, é um bem tão finito como a nossa existência. Os sabores desmultiplicam-se mas chegam-nos apenas por indução. Já não somos livres nas nossas escolhas.  

As artes reflectem este estar. Os curadores sobrepõem-se demasiadas vezes aos criadores e às criações. Gerem a avidez e a necessidade de respostas através de jogos de palavras. Procuram saídas para este impasse. São eles os decisores. Aqueles que apontam e validam. Reportam na maioria das vezes e sem o saber, a exaustão, a exaustão da abundância e a dificuldade de nos deixarmos surpreender. Raras vezes são resposta a um novo olhar. Condicionam mais do que abrem. Geram penumbra.

As novas gerações vivem este difícil e penoso jogo, entre aquilo que as constitui, a necessidade de dar uma resposta interior e as exigências do seu tempo. Não basta coragem para prosseguir, é preciso ambicionar espreitar para lá da penumbra. 

 Joana Rá, Do espaço Técnica mista sobre papel e madeira 70 x 70 cm 2017

Joana Rá,
Do espaço
Técnica mista sobre papel e madeira
70 x 70 cm
2017

 Joana Rá Ensaiando os raios de Sol Técnica mista sobre papel e madeira 50 x 50 x 25 cm 2017

Joana Rá
Ensaiando os raios de Sol
Técnica mista sobre papel e madeira
50 x 50 x 25 cm
2017

Subtrair o contorno da essência

Tenho acompanhado de perto os processos da Joana Rá. Aprendi a observar os seus trabalhos como um convite à reconstrução do olhar, a oportunidade de sair da tela e configurar novos caminhos. Há artistas que nascem com um guião, um dom que os obriga a transbordar por ali. A Joana Rá faz parte de um outro grupo, daquele que nasceu para explorar limites e fronteiras. 

Não sabem ao que vêm e muito menos ao que irão. Seguem o instinto. Há um foco e uma energia interior que os atira para ali. Uma vontade interna que se sobrepõe aos desejos do mundo. Arriscam. Como um explorador, desejam encontrar-se frente a frente com o desconhecido. E partem. Por norma os caminhos são sinuosos. Levantam-se dúvidas e barreiras. Por vezes são forçados, voltam para trás. Irritam-se, viram mais uma esquina e seguem. É um acto contínuo de procura e conquista. 

 
 

Joana Rá protagoniza uma súmula da contemporaneidade, dos desafios e oportunidades que se encontram nela. Falo primeiro da Joana Rá e não do seu trabalho. O trabalho chega depois. Primeiro a estudante de arquitectura, filha de arquitecto, irrequieta e insatisfeita. A casa é a sua base, o ponto de partida, a estrutura que a sustém, mas a vibração interna amplia algo que não se define. Não lhe chega a casa. Tão pouco as escolas de artes e os seus processos. O contexto que procura é amplo. Precisa de agregar: materiais, formas, interrogações, experiências. Precisa de espaço para a surpresa. Estudou serralharia, mas seguramente irá aprender carpintaria, joalharia, tapeçaria... vai procurar sempre abraçar o mundo, ainda que o seu aperto nunca seja suficiente, perfeito. Sabe bem que trabalha lado a lado com o efémero. Tem medos, mas segue. Interroga-se e arrisca neste mar revolto e impermanente. E tudo isto é tão presente, tão real, tão contemporâneo. 

 Joana Rá Por debaixo do tapete Técnica mista sobre papel 61 x 47 cm 2015

Joana Rá
Por debaixo do tapete
Técnica mista sobre papel
61 x 47 cm
2015

O seu percurso, não sendo em absoluto iniciático, contém uma frescura que me agrada. A originalidade nos nossos dias é demasiadas vezes sinónimo de agressão, transgressão ou movimento forçado, fazendo deles bandeira; e neste tempo em que os conceptualismos comandam a criação e domina um certo caos, como lei e ordem, o trabalho de Joana Rá cativa um grau de alquimia que nos chega como uma expressão alternativa, original. 

Ficamos na dúvida se as estruturas que nos apresenta são as obras, ou se as obras residem na imagem que delas captamos. Provavelmente a verdade esteja nesta junção de estrutura e composição. De cor, forma e textura. De pintura e escultura. Há em todas elas uma evidente subtracção, o desejo de subtrair corpo, densidade, até restar apenas um contorno, um apontamento, um sopro delicado que permaneça como um sopro de vida.